Sem leitos de UTI para Covid na rede pública, dobra na Justiça o número de pedidos por vagas em hospitais do RJ

Taxa de ocupação de leitos de UTI dedicados à Covid na rede SUS está em 92%. Nas enfermarias, percentual também é alto (88%).

Com o aumento no número de casos de Covid em todo o estado do Rio e poucos leitos disponíveis, muitas pessoas têm recorrido à Justiça para conseguir uma vaga em uma UTI, principalmente na capital.

Só em novembro, durante o plantão noturno, foram 36 ações judiciais com pedidos de transferência para unidades hospitalares dedicadas à Covid. Esse número é o dobro do registrado em outubro.

A ocupação de leitos de UTI dedicados à Covid na rede SUS já beira o limite. Na capital, a taxa está em 92%, e nas enfermarias, em 88%.

De acordo com a Secretaria Estadual de Saúde, responsável pela regulação dos leitos, 452 pessoas aguardam transferência para leitos de Covid no estado do Rio — 204 para enfermaria e 248 para UTI.

No domingo (6), o estado do Rio chegou a 23.131 óbitos e 371.075 casos de Covid-19.

Paciente aguarda leito de UTI no Andaraí

Há doze dias, a mãe da assistente de TI Walquíria Miranda deu entrada no Hospital Federal do Andaraí, na Zona Norte do Rio.

Dilma Miranda, de 61 anos, chegou com uma infecção no pé, tosse e falta de ar. Segundo a família, ela passou os seis primeiros dias sentada em uma poltrona do hospital.

Na semana passada, a paciente testou positivo para Covid e seu quadro de saúde se agravou: ela está inconsciente e precisa ser transferida para a UTI.

Mas o hospital diz que não tem vaga. E justifica que a unidade não tem suporte para tratar a paciente.

 

“A última imagem que eu tive da minha mãe foi no dia 30, ela falando ‘Wal, pede pra Deus me levar porque eu não aguento mais sofrer aqui, não aguento mais ficar nessa cadeira sentindo dor’”, conta Walquíria.

 

"Eu quero saber das autoridades, porque todo dia eles falam que vão aumentar os leitos. Cadê esses leitos? Eles falam que têm convênio com hospital particular. Cadê esses leitos que estão conveniados, cadê a transparência disso?", questiona a filha.

Sem a vaga, Walquíria procurou a Defensoria Pública, que entrou com uma ação na Justiça para garantir um leito de UTI para a mãe. Mas o pedido acabou negado porque não tinha um laudo médico explicando a situação da paciente.

A filha pediu o documento ao hospital, mas disse que ele foi negado.

 

"O médico falou da seguinte forma: 'pra que você quer esse laudo? Eu falei: 'Preciso correr atrás'. 'Quem corre atrás é o hospital, você não vai fazer nada'. O médico falou isso pra mim".

 

Ainda sem a vaga para mãe e, sem o laudo, Walquíria entrou com uma nova ação. Dessa vez a Justiça determinou que um oficial de justiça fosse até o hospital pegar o laudo.

No relatório enviado ao juiz, o oficial de justiça disse que não encontrou o diretor do Hospital Federal do Andaraí, nem um substituto.

Relatou ainda que, no sexto andar do hospital, onde estão internados pacientes com Covid, não havia nenhum médico. Disse ainda que foi até a emergência e intimou uma médica a fornecer detalhadamente o estado de saúde de Dona Dilma.

A médica informou que a paciente necessita de vaga de CTI com urgência, mas, mesmo assim, ela continua na enfermaria.

“A gente nota claramente um aumento do número de demandas judiciais, o que não implica só num aumento do número de casos, mas principalmente um aumento da ausência de vagas necessárias para dar conta do atendimento. Se a gente tivesse um aumento de casos, mas tanto a rede pública quanto a rede privada conseguissem absorver esses casos, não teria demanda judicial. Só tem demanda judicial porque as pessoas não estão conseguindo leitos”, explica a defensora pública Isabel Fonseca.

Sobrecarga dos profissionais

Além dos poucos leitos, o número de profissionais dedicados ao tratamento da Covid diminuiu nos últimos meses. Os que continuam na linha de frente estão sobrecarregados e temem um colapso do sistema se nada for feito.

 

“A gente tá vivendo um momento em que o corpo clínico, não só médico, mas de enfermagem e fisioterapia, está vindo de uma guerra de 8 meses. É um grupo já bastante cansado. O número de casos vai continuar aumentando. Não vai ter emergência que dê conta de tanto caso. Não tem sistema de saúde que suporte isso", diz o médico André Casarsa Marques.

 

A produção desta reportagem entrou em contato com o Ministério da Saúde para saber sobre o caso da paciente Dilma, mas ainda não teve retorno.

 

Fonte: G1

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