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Professor Maurício Barroso

Foto: Internete

Enquanto alunos humilham professor, gratidão leva outros a saldar dívida de mestre aposentado no RJ

Ex-alunos de Petrópolis arrecadaram com campanha na internet R$ 88 mil para ajudar professor aposentado saldar dívidas.

Um vídeo que mostra o professor de português, Thiago dos Santos Conceição, sendo humilhado dentro de sala de aula em Rio das Ostras, no interior do Rio, viralizou e acendeu os holofotes sobre a questão da educação no Brasil e a desvalorização do professor.

Enquanto isso, em Petrópolis, na Região Serrana do Rio, ex-alunos expressaram seu sentimento de gratidão ao mestre aposentado, Maurício Barroso, de 82 anos, arrecadando mais de R$ 88 mil para ajudá-lo a quitar dívidas com empréstimos e consignados.

O valor foi arrecadado em campanha online que propôs a seguinte reflexão: "Quanto vale um professor?". A princípio ele devia R$ 106.602, mas os ex-alunos conseguiram negociar com os bancos fazendo o acerto com o valor arrecadado. Com isso, conseguiram liberar integralmente a aposentadoria de Maurício, que estava comprometida tornando a realidade do professor muito difícil.
Os ex-alunos disseram que graças ao mestre conseguiram entrar para a faculdade e se tornaram advogados, médicos, psicólogos, dentistas, professores e administradores.

O professor revelou que ficou surpreso com a mobilização deles e viu com tristeza e chateação as cenas do professor que foi humilhado em Rio das Ostras.

O professor de matemática tinha uma escola tradicional em Petrópolis e as dívidas foram consequência de empréstimos que fazia com os bancos para manter a unidade de ensino. Atualmente, o professor e a mulher, Iraci Barroso, moram em Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio, com a filha.

Quando souberam da dificuldade financeira em que o mestre se encontrava, os ex-alunos organizaram uma campanha na internet, que ocorreu entre setembro de 2017 e janeiro de 2018, e propuseram a discussão sobre "Quanto vale um professor?".

Meses depois eles conseguiram com os R$ 88.889,48 liquidar as contas dele.

Uma das preocupações dos ex-alunos era porque a dívida estava comprometendo parte das aposentadorias do Maurício e da mulher dele. Com o valor arrecadado, os dois voltaram a receber o benefício integralmente.

Para Iraci, os ex-alunos foram anjos da guarda na vida do casal.

Além de participar da organização da campanha, de forma voluntária, o ex-aluno, formado em direito pela UFRJ, José Ferreira Bernardo Junior, de 31 anos, ajudou o professor Maurício com o processo de negociação dessas dívidas.

Eva Maricato, administradora de empresas, com pós-graduação em Gestão Estratégica de Vendas e Negociação, foi quem organizou a campanha na internet. Ela afirma que a mobilização foi baseada em muito respeito e carinho pelo mestre.

"Todos os ensinamentos foram além da matemática, foram para a vida. A proporção que nosso movimento tomou me fez voltar a acreditar no ser humano. Recebemos muito apoio, elogios, carinho, palavras de agradecimento de muitas pessoas que nos falaram que voltaram a crer na gratidão", disse.

Para o ex-aluno, Américo Pastor, que é formado em psicologia, doutor em educação e, atualmente, está cursando pós-doutorado em Psicologia na Universidade Católica de Petrópolis (UCP), o resultado da campanha foi surpreendente.

"Hoje somos psicólogos, médicos, engenheiros, advogados e mais toda uma gama de profissionais que só conseguiram alcançar essa formação em razão do investimento e empenho de um professor que remava contra a maré e resistia em um momento das raras políticas afirmativas", disse Américo.

Os ex-alunos do professor Maurício não entendem como ainda há estudantes que não reconhecem a importância do professor para o futuro deles.

Para o grupo que participou da campanha e buscou retribuir a ajuda que recebeu do mestre anos atrás, o que aconteceu com Thiago em Rio das Ostras demonstra ainda a difícil situação em que se encontra a profissão do magistério.

"São muitos os fatores que implicam na situação a qual chegamos e vimos no triste episódio ocorrido na semana passada. A falta de verbas para escolas, a desvalorização dos profissionais de educação, a ausência de políticas de Estado, os problemas econômicos, estruturais, sociais e de planejamento, ficam evidentes no ocorrido em Rio das Ostras", diz o ex-aluno do Maurício, Guilherme Thomaz, que é advogado e mestre em Políticas Públicas e Formação Humana pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Fonte: G1/ Região Serrana

24/09/2018

09:48:49