Sociedade Brasileira de Patologia repudia rim armazenado em galão de suco e por meses em hospital de Nova Friburgo.

SBP emitiu nota sobre caso que aconteceu no Hospital Raul Sertã. Mulher recebeu o rim do marido quatro meses depois da cirurgia em um frasco que, segundo a SBP, é inadequado e pode afetar o diagnóstico.

A Sociedade Brasileira de Patologia (SBP) emitiu uma nota repudiando o fato do Hospital Municipal Raul Sertã de Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio, armazenar um rim em um galão de suco de polpa de maracujá e entregá-lo apenas quatro meses depois à mulher de um paciente.

Para a SBP, a ação foi "irresponsável".

 

"É um absurdo um paciente ficar quatro meses aguardando um diagnóstico! Além disso, deve ser armazenado em um frasco transparente, nunca em um frasco que foi utilizado para armazenar alimentos".

 

O desabafo veio do presidente da SBP, Clovis Klock, ao explicar que não é comum, nem recomendando que um órgão fique tanto tempo armazenado sem encaminhamento para o exame, já que existem técnicas, como a patologia molecular, que identificam a doença desde que o exame seja feito em até 72 horas.

"O estudo anatomopatológico é ponto chave no diagnóstico do câncer. Devendo sempre o material ser fixado em formol tamponado a 10% em um tempo entre 8-72 horas. Deve ser armazenado em um frasco, transparente, nunca um frasco que foi utilizado para armazenar alimentos", afirma a nota da SBP.

O órgão foi entregue pela unidade no dia 17 de julho à Maristher Fukuoka, que levou o rim para uma clínica particular pagando R$ 600 pelo exame. A previsão é que o diagnóstico fique pronto apenas no dia 14 de agosto.

A mulher afirma que foi enganada pelo hospital, que, em março, afirmou que o rim de Sebastião Mury, de 62 anos, tinha sido encaminhado para a biópsia no Rio de Janeiro. Mas ela descobriu, já em julho, após muitas idas à unidade atrás do resultado, que o encaminhamento do órgão ao Rio não tinha ocorrido.

 

"A funcionária me disse: 'Não vou mais te enganar. O rim nunca saiu do hospital", contou .

 

A SBP afirma que houve uma sequência de erros que podem afetar o diagnóstico e, portanto, prejudicar o atendimento da população, quando os exames não são feitos em até 72 horas. Clovis explica a importância de respeitar esse prazo.

 

"Desta forma, o órgão não perde a parte antigênica do tumor. Quando fica muito tempo no formol pode não conseguir um diagnóstico e o paciente perde a chance do tratamento", disse.

 

A SBP cobrou explicações do Hospital Raul Sertã e do Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj) sobre o caso.

"Solicitamos que as autoridades competentes tomem providências urgentes para que esse fato não seja repetido", afirma a entidade.

Descaso em todo o país

Além disso, a SBP diz que o fato de o hospital não contar com Serviço de Patologia próprio ou contratado, denota mais uma vez "o descaso com que todas as esferas governamentais têm tratado a Patologia nos últimos anos".

O presidente da SBP disse que o valor pago hoje pelo SUS por um exame anatomopatológico é de R$ 24, o mesmo desde 2008, e que não cobre o custo mínimo para a realização do procedimento. De acordo com ele, o gasto hoje com esse tipo de exame custa entre R$ 45 e R$ 50.

"A grande maioria dos serviços privados não quer mais atender o SUS e os serviços públicos estão na sua grande maioria sucateados ou não existem, como é o caso do referido hospital. Quem sofre são os pacientes que dependem do SUS. Esse problema é nacional".

Notas

Sobre a nota de repúdio da SBP, a produção desta reportagem entrou em contato com a Secretaria de Saúde do município e aguarda reposta.

Na tarde de quarta-feira (24), a Prefeitura disse à equipe de reportagem que foi criada uma comissão para analisar o caso. Afirmou ainda que diversas reuniões estão ocorrendo e, posteriormente, será emitido um parecer sobre esta situação especificamente.

A Secretaria de Saúde do município disse ainda que, atualmente, várias biópsias estão em processamento e cerca de 230 "peças", entre órgãos e outros materiais, estão aguardando para serem analisadas.

Sobre as demandas reprimidas, a secretaria disse que foi devido ao desligamento de um profissional que realizava o serviço, mas afirmou que foi providenciada a contratação de um novo profissional e que o serviço será normalizado em breve.

O município disse ainda que as peças de biópsia, neste caso o rim, são normalmente armazenadas em recipientes plásticos comuns, após serem devidamente higienizados e esterilizados.

Segundo os profissionais de Patologia do Hospital Municipal Raul Sertã, a prática é comum até mesmo em unidades hospitalares da rede particular e não implica em alterações nos resultados dos exames.

De acordo com a Prefeitura, o procedimento para o armazenamento correto do material é através da imersão em formol e não em geladeira. Na quantidade ideal de formol, a peça se mantém conservada por anos.

A respeito do rótulo no recipiente, em que consta escrito "polpa de maracujá", o município disse que será instaurado um inquérito administrativo para identificar os responsáveis e aplicar as sanções cabíveis.

O caso também foi registrado na 151ª Delegacia de Polícia (DP).  A produção desta reportagem aguarda reposta da Polícia Civil para saber se foi instaurado inquérito para investigar o caso.

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